Vivendo em uma Eco Comunidade Alternativa

Escolhi viver durante 2 meses em uma Eco Comunidade Alternativa após adiar uma viagem para a Chapada dos Veadeiros. Originalmente, eu iria para Goiás no final de fevereiro, mas depois do carnaval o número de casos de coronavírus aumentou muito no interior gaúcho, região onde eu me encontrava. Sendo assim, preferi alterar a data do voo e acompanhar a situação nas semanas que estavam por vir.

Além disso, dias depois de estar vivendo esse cenário no Rio Grande do Sul, as cidades da Chapada dos Veadeiros também adotaram medidas mais rígidas e os locais onde eu iria atuar como voluntária, em Alto Paraíso de Goiás e Cavalcante, tiveram suas atividades comprometidas.

Nos últimos anos passei a ter mais clareza que quando uma porta se fecha outra se abre e que as experiências chegam quando estou preparada para vivenciá-las. Antes de ter esse entendimento, ficava frustrada pelo fato de minha expectativa não ter sido atendida, mas ao mudar meu olhar em relação a esses acontecimentos, deixei de sofrer pelo que “não deu certo”, confiando no fluxo natural da vida.

Objetivo: viver no mato

Havia pago aluguel durante 3 meses nos últimos 4 anos. No restante do tempo me permiti viver um pouco em cada lugar, trocando trabalho por hospedagem e adotando um estilo de vida nômade minimalista.

Antes de comprar a passagem para a Chapada dos Veadeiros, considerei alugar uma casa no “meio do mato”, como costumo dizer. Pesquisei bastante, especialmente em Santa Catarina, mas os aluguéis naquela época estavam bem altos. A procura por esse perfil de moradia/hospedagem aumentou bastante com a chegada da pandemia. Sendo assim, apenas manifestei: se for para pagar aluguel, que seja em um local no meio da natureza, onde eu possa continuar aprendendo e contribuindo. 

Foi assim que o universo me conectou ao Soluna Espaço Veg, localizado em Florianópolis, capital catarinense. Encontrei o sítio na plataforma Worldpackers enquanto realizava as pesquisas. Fiz o primeiro contato sem saber que teria que adiar a viagem, informando meu interesse em alugar um quarto quando eu retornasse da Chapada dos Veadeiros. Isso foi em janeiro e na época não havia disponibilidade para a data que eu pretendia alugar, por isso deixei meu nome na lista de espera.  

Mulher sentada entre duas quedas d'água
Local onde ficam algumas quedas d’água do sítio

Depois de já ter alterado a passagem pela segunda vez, voltei a contatar o Soluna, e para minha feliz surpresa, um quarto estava disponível para entrada em abril. Sinceramente, pesquisei pouco sobre o espaço antes de confirmar a hospedagem, mas o suficiente para ter certeza de que era esse tipo de “isolamento” que minha alma carecia.

A magia da ilha de Florianópolis

Embarquei para Floripa via Buser no primeiro dia de abril, chegando à cidade no amanhecer do dia seguinte. Ao desembarcar do ônibus me dei conta que seria meu terceiro ciclo na Ilha da Magia. O primeiro havia sido em 1997 e o segundo em 2006, com cerca de 4 meses cada. O mais interessante é que esses dois ciclos fizeram parte de processos de transição e não descarto estar vivenciando mais um desses processos.

Para chegar à Eco Comunidade Alternativa segui do centro de Florianópolis até o Canto dos Araçás, na Lagoa da Conceição. Deste ponto em diante o deslocamento é feito por barcos do transporte público que fazem 23 paradas na Costa da Lagoa. O ponto mais próximo do sítio é o 7 e a travessia, com cerca de 20 minutos, um convite para apreciar as belas paisagens naturais da região. Do trapiche são 300 metros de caminhada até a entrada do sítio. Ao descer no Ponto 7 basta seguir reto e depois dobrar à esquerda na bifurcação. O portão do Soluna fica do lado direito da trilha.

Outra opção para chegar ao sítio é pela própria trilha, mas como eu estava com a bagagem e não conhecia o caminho, preferi seguir de barco. Aliás, o portão de acesso à Eco Comunidade Alternativa fica na Trilha da Costa da Lagoa, muito procurada por amantes de atividades outdoor de Florianópolis e região. Do início da trilha, no Canto dos Araçás, até o Soluna são pouco mais de 3 quilômetros de caminhada, com poucos obstáculos e muitas pausas para contemplação. 

A magia da Eco Comunidade Alternativa

Soluna Espaço Veg está no meio da mata atlântica, cercado pela paz que a energia da natureza oferece. Isso têm me proporcionado uma experiência restaurativa desde o primeiro dia. O caminho que leva até a casa principal do sítio é rodeado pela mata nativa com árvores antigas e muitos bambuzais. Aliás, eles são bem comuns na Costa da Lagoa. Um riacho passa pelo sítio e seguindo a trilha que leva até o ponto mais alto da propriedade ficam algumas quedas d’água, paredões rochosos, piscinas naturais e um mirante com vista para a Lagoa. Também é nesse ponto que é feita a captação da água que consumimos na comunidade.

Desde que escolhi não ter mais endereço fixo venho vivendo em espaços coletivos, grande parte das vezes em hostels urbanos, dividindo áreas comuns e também o quarto. No Soluna tenho mais privacidade, pois estou em um quarto individual. Os demais espaços são compartilhados.

O sítio recebe mensalistas nos meses de baixa temporada. No verão as instalações ficam disponíveis para camping, hospedagem, retiros, cerimônias e cursos. Atualmente, a estrutura construída conta com 1 casa onde vive o casal que cuida do espaço, 4 chalés, 4 quartos, 2 cozinhas, 1 sala e 3 banheiros coletivos. Ela acolhe muito bem os 12 moradores, 13 gatinhos e a cachorrinha Aurora.

Também convivemos em harmonia com os demais animais que habitam a mata onde a Eco Comunidade Alternativa está inserida. São mamíferos, répteis, anfíbios e uma grande variedade de insetos e aves. Aliás, desde o dia em que cheguei ao sítio já registrei mais de 30 borboletas diferentes nas flores em frente à porta do meu quarto.

No Soluna vivemos com simplicidade e leveza, por isso não tenho dúvidas que meu coração escolheu o lugar perfeito para dar continuidade à projetos pessoais e recarregar as energias. Além disso, tenho a chance de conhecer essa região de Floripa e aprender sobre as técnicas que vem sendo aplicadas nesse “espaço-escola”, como agroecologia e permacultura.

A troca com os demais moradores também é muito especial. Dividimos as tarefas, nos ajudamos, temos boas conversas e aprendemos juntos a construir um espaço mais saudável para todos. As confraternizações com receitas veganas são ótimas. “Estou” vegetariana, mas aprendendo bastante sobre o veganismo e percebendo que o passo para me tornar vegana é muito mais curto do que eu pensava, considerando o que venho consumindo. 

Nesse vídeo o Luis, que já foi voluntário e agora é morador da comunidade, conta detalhes sobre a experiência

Um dia de cada vez, exatamente assim estou vivendo aqui na Costa da Lagoa. Meu único compromisso fixo tem sido às quartas-feiras, quando são comercializados legumes, frutas e verduras frescos na praça da Lagoa da Conceição. Nesse dia aproveito para pegar o barco cedinho e comprar tudo o que preciso, já que nas proximidades da comunidade não há comércio. No sítio algumas hortaliças e legumes que plantamos quando cheguei estão crescendo e em poucos dias passarão a fazer parte de nossas refeições.

A melhor experiência é a prática

Essa é a minha primeira experiência como moradora de uma Eco Comunidade Alternativa e, certamente, não será a única. Com essa vivência saí ainda mais de minha zona de conforto e o que sinto hoje é que a vida em comunidade se aproxima bastante daquilo que desejo materializar quando escolher me fixar em algum lugar. Além disso, vivências assim são enriquecedoras para quem está pensando em fazer a transição da cidade para um sítio.

Há muitas comunidades, sítios e ecovilas que oferecem oportunidades de voluntariado, moradia temporária e até mesmo locação de casas para períodos curtos com a possibilidade de participar das atividades do dia a dia. Vivendo no Soluna vejo o quanto é importante ter a experiência na prática, pois só assim é possível se aproximar das alegrias e desafios que a “vida no mato” oferece.

Sugestão de documentário que esclarece muitos aspectos da vida em comunidade

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2 comentários sobre “Vivendo em uma Eco Comunidade Alternativa

  1. Mari

    Amei como abordou a vida no Soluna! Que bom que conseguiu aproveitar o que é a essência do espaço, e curtir o que há de valioso aqui na região: a natureza! Grande abraçooo

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